Metodologia inovadora foi destaque ao responder às primeiras dúvidas sobre o tratamento de covid-19; prêmio pode chegar a 1 milhão e 50 mil euros
O estudo mineiro que ganhou destaque internacional ao identificar medicamentos que auxiliam na redução de mortes e hospitalizações por Covid-19, ainda em 2020, antes de todo o mundo, é finalista do Prêmio Euro Inovação na Saúde. Concorrendo com pesquisas de 17 países da América Latina, se o projeto Together, como é chamado o estudo, ganhar, o prêmio que pode chegar a 1 milhão e 50 mil euros será investido em replicar a metodologia pioneira em um projeto contra a fome em Minas Gerais. A categoria médica pode optar pelo Together em votação aberta até 28 de junho.
O diferencial do projeto foi realizar um estudo inovador, com qualidade e embasamento científico, imediatamente após os primeiros casos de Covid no Brasil. “Era uma doença totalmente nova. Normalmente, pesquisas assim levam tempo, são projetos longos. Resolvemos, então, fazer diferente para que desse tempo de ajudar à população. Fizemos o que chamamos de estudo adaptativo. Ao invés de focar em um medicamento, estudamos a doença”, explica Gilmar Reis, principal pesquisador do Together.
A equipe esteve em mais de 30 municípios de Minas Gerais, iniciando o estudo dentro de Pronto-Socorros do Sistema Único de Saúde (SUS). Com cerca de 30 mil pessoas voluntárias que apresentaram síndrome gripal leve ao longo dos últimos três anos, foi possível testar diversos medicamentos que provaram auxiliar ou piorar a Covid-19.
“Funciona da seguinte forma: a pessoa, se sentindo doente, procura um pronto-atendimento. A unidade de saúde oferece a assistência e dá alta, uma vez que se trata de um quadro leve da doença. Com o resultado positivo para Covid-19, essa pessoa é convidada a participar do Together. Nós a acompanhamos por cerca de dois meses por visitas domiciliares, ligações telefônicas, orientações de uso dos medicamentos”, descreve Reis, reforçando que foram seguidos critérios rígidos de participação.
Com a metodologia, aplicada pela primeira vez no país, foi possível abordar diferentes tratamentos em um curto período de tempo. O estudo Together virou manchete em notórios jornais internacionais ao provar a ineficiência da ivermectina, em março de 2022. “Poucos dias depois do início do tratamento com ivermectina, voluntários apresentaram piora da doença”, afirma Gilmar Reis, que também é professor e pesquisador na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (Puc-Minas) e na McMaster University, do Canadá.
Em fevereiro deste ano, o projeto Together provou a eficiência do medicamento chamado de ‘Interferon lambda peguilado’, que reduziu as chances de hospitalização por Covid pela metade e se mostrou mais prático e barato que os outros remédios do mercado. “É uma medicação que se mostrou eficiente em pacientes independente da vacina ou da cepa do vírus. É uma descoberta das mais importantes”, diz Reis.
Os resultados do estudo estão sendo aplicados não só no Brasil, mas em diversos países como Ásia e China. “O estudo ambulatorial é considerado um dos três mais importantes em Covid-19, porque trouxe respostas valiosas para o enfrentamento da doença. Fomos o primeiro no mundo a identificar um medicamento que reduz mortes e hospitalizações”, continua o pesquisador. De fato, o Together foi eleito o ensaio clínico do ano de 2021 e recebeu o prêmio “Davis Sacket”, considerado o Oscar da ciência.
Metodologia pode ser aplicada para enfrentar a fome
O Together não quer parar na Covid-19. Durante o estudo da equipe nos últimos três anos nas assistência do SUS, os pesquisadores foram tocados pela realidade social da fome. “Durante a pandemia, visitamos mais de 5 mil domicílios, impressionados com o que nós presenciamos. É estarrecedor. Nos deparamos com famílias de cinco crianças que se alimentam apenas de arroz e picadinho de cenoura, mais nada”, lamenta Gilmar Reis.
A proposta é que, com o dinheiro do Prêmio Euro, e em parceria com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e os governos municipais, a metodologia que apresentou bons resultados para os tratamentos de covid-19 possa chegar a soluções de melhora de nutrição de crianças de 0 a 12 anos em situação de vulnerabilidade social.
“Queremos estudar quais compostos alimentares são mais eficientes para causar recuperação nutricional nessas crianças. E quais resultados são esses: seriam impactos no desenvolvimento neuro cognitivo, afetivo? Em qual intensidade? A insegurança alimentar quase dobrou nos últimos quatro anos e não temos esse tipo de informação”, afirma o pesquisador.
O estudo piloto deve começar dentro dos próximos meses em Lagoa Santa, e os primeiros alimentos já foram selecionados: soja e composto de biomassa. “Depois, caso consigamos o valor do Prêmio Euro, pretendemos estender para a Serra Geral, no Norte de Minas. Queremos chegar à Nova Porteirinha, no Vale do Jequitinhonha, que tem um IDH muito baixo”.
Como um estudo científico, mas de impacto social, o projeto contra a fome não tem o objetivo de abandonar as famílias após o fim do estudo. “Queremos que ele seja autossustentável. Depois da pesquisa, a associação comunitária vai continuar o projeto e apoiar a segurança alimentar dessas crianças e famílias. Se não, de nada adianta. Quem sabe não se torna uma política de Estado?”, propõe o pesquisador.
Diversas possibilidades
Além do projeto de enfrentamento à fome, outro estudo que o Together pode abrir caminhos é sobre alternativas para diagnóstico de doenças cardiovasculares, principalmente infarto e derrame. “É um problema público que podemos usar a mesma metodologia para auxiliar. A atenção primária à saúde é sobrecarregada e atende uma população muito maior do que deveria assumir. Estamos atentos à isso e criando uma metodologia diferente, adaptativa, multiplataforma, para auxiliar no diagnóstico das doenças cardiovasculares e como otimizar o tratamento delas pelo SUS”, explica Gilmar Reis.
Serão selecionadas 12 iniciativas que irão receber prêmios de 50 mil euros. Entre elas, uma vencerá como “Iniciativa Destaque” e vai receber mais 500 mil euros, totalizando em 1 milhão e 50 mil euros. Troféus serão entregues para os mais votados de cada país.
Fonte: JORNAL O TEMPO